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OLIVEIRA CENTENÁRIA NO PROJETO: DO DESEJO DO CLIENTE AO LUGAR CERTO

Foto do escritor: Por Bruna Sakamoto
Por Bruna Sakamoto
há 10 horas
5 min de leitura

Oliveira centenária plantada em jardim - Projeto com a Árvores Hara, Fonte: instagram.com/haraarvores_


Fala, paisagista!


Poucas árvores chegam ao briefing com tanta certeza quanto a oliveira. O cliente já viu a foto, já escolheu o canto da casa e às vezes já se imagina colhendo as próprias azeitonas. O desafio é transformar esse desejo num exemplar que vai prosperar, e não numa árvore que vai sofrer num lugar que não é o dela.


Por que ela virou objeto de desejo

Tronco retorcido, folhagem prateada que muda com o vento, uma árvore que atravessa gerações: a oliveira carrega uma carga simbólica que poucas espécies têm. E, no alto padrão, soma-se a isso um desejo muito concreto, o de ter o jardim pronto já na entrega.

A paisagista Fabiana Bellini, que atua no mercado de luxo em Goiânia, explica por que usa tantas árvores maduras nos projetos:


“Os clientes gostam. Ninguém quer esperar 100 anos.”

Fabiana Bellini no podcast Arte da Mata


Ao mostrar um de seus projetos no episódio, ela aponta uma oliveira centenária como uma das mais bonitas que já plantou. Não é difícil entender o encanto.


Helô Pedroso e Luciana Ramos, da Árvores Hara, cuidam de oliveiras de dez anos a centenárias num viveiro em Santa Catarina e dão a medida desse tempo: uma oliveira de 20 anos tem cerca de 20 centímetros de diâmetro de tronco. “Se a pessoa plantar hoje uma muda de um ou dois anos, ela não vai ter, até o fim da vida, aquela árvore ornamental”, dizem. É justamente por carregar tanto tempo que a oliveira pede mais cuidado na especificação do que o encanto sugere.


Onde o sonho esbarra na planta

Para Marcel Rodrigues, paisagista com mais de 30 anos de profissão, a questão nunca é a espécie em si:


“Não tem planta feia, não tem planta ruim. Tem planta no lugar errado.”

Marcel Rodrigues no podcast Arte da Mata


Com a oliveira, o lugar errado costuma ser o mesmo: dentro de casa, na meia-sombra, colada ao vidro da varanda ou espremida contra um muro. Quando a pergunta “dá para colocar a oliveira em ambiente interno?” aparece no episódio, a resposta de Helô e Luciana é direta:


“Não dá. A oliveira é uma árvore de sol pleno. Sol pleno na copa: não é ‘bate sol aqui embaixo, na base, no tronco’. São pelo menos seis horas de sol direto na folha, não só aquela claridade.”


Helô Pedroso e Luciana Ramos, da Árvores Hara, no podcast Arte da Mata


Elas apontam ainda a falta de ventilação do ambiente fechado, que deixa a oliveira sujeita à cochonilha. Na mesma conversa aparecem outros dois cuidados: não encostar a copa em muro, para que a luz chegue por todos os lados, nem em vidro, que aquece e queima as folhas.


Muitas vezes o pedido vem de uma imagem de rede social, feita logo depois da montagem de uma exposição. O cliente não sabe o que aconteceu com aquela árvore depois. “Às vezes é por falta de conhecimento. A pessoa tem esse sonho, mas não sabia que não dava”, observam as duas. Explicar isso, com calma e antes da compra, é parte do trabalho do paisagista.


E a azeitona?

É a pergunta clássica, e Helô e Luciana a escutam muito. A resposta delas: pode acontecer, mas não é comum, porque a produção de azeitona pede regiões mais frias e de maior altitude. No próprio viveiro, que fica no litoral, as primeiras azeitonas vieram com uma pista:


“A gente observou que, quando tu poda muito a oliveira, ela tende a não dar azeitona. As que estavam mais soltas foram as que frutificaram.” Helô Pedroso e Luciana Ramos, da Árvores Hara

Azeitonas em uma oliveira - Fotografia: Rodrigo Nuno Bragança da Cunha


Ou seja: a oliveira conduzida para ornamentação, com a copa bem trabalhada, dificilmente vai encher a cesta. Ainda assim, surpresas acontecem. Elas contam o caso de uma arbequina plantada numa floreira, num condomínio do litoral catarinense, que frutificou. Vale alinhar a expectativa desde o início, para que uma eventual azeitona seja uma surpresa boa, e não uma promessa não cumprida.



O peso que a foto não mostra

A madeira da oliveira é densa, e os números de Helô e Luciana ajudam a dimensionar: um exemplar de cerca de 20 anos, com torrão de quase um metro de diâmetro, pesa pelo menos de 200 a 300 quilos. Centenárias estimadas em 150 anos ficam entre duas e três toneladas; as de 250 anos, entre cinco e oito. Some a isso o substrato e a água, e fica claro por que laje, floreira e acesso das máquinas precisam estar resolvidos antes da escolha da árvore.


A drenagem entra na mesma conta. “É importantíssima, não só na hora em que ela está sendo replantada, mas no desenvolvimento dela”, dizem. A oliveira quer solo drenado e pouca irrigação; cova ou floreira que encharca trabalha contra ela.


Tronco em destaque de uma oliveira em um projeto com Árvore Hara - Fonte: arvoreshara.com.br/


Toda árvore tem uma frente

Parece estranho, mas no paisagismo a árvore tem lado. E, no caso da oliveira, nenhum exemplar repete o outro:


“Cada uma é única, cada uma tem um desenho diferente: uma abertura de copa um pouco mais em cima, mais embaixo. Dependendo do projeto, tu vai precisar de uma específica." Helô Pedroso e Luciana Ramos, da Árvores Hara

Por isso Helô e Luciana procuram identificar a frente de cada árvore e contam que, no dia do plantio, gostam de ter arquiteto, paisagista e cliente juntos para validar a posição, olhando de longe. A palavra final, para elas, é de quem vai conviver com a árvore e conhece os hábitos da casa. E nada de ajeitar na mão: com esse peso, cada giro é feito com munck ou guindaste.


Elas contam um caso na Serra Catarinense em que a escolha foi estudada em detalhe: o cliente queria enxergar a árvore de dentro da adega e ter a copa na altura dos olhos quando estivesse sentado no deck, sem que os galhos avançassem sobre a área de um toldo automático. A oliveira, de quase três toneladas, precisou passar de guindaste por cima da casa para chegar ao ponto de plantio.


Até a variedade entra na conta. Algumas têm folhagem mais acinzentada e fosca; outras, como a arbosana, um verde mais vivo. “Dependendo da riqueza de detalhes do projeto, a gente seleciona a variedade que vai ornar mais com aquele tipo de fachada”, explicam.


Oliveira centenária sendo içada por guindaste sobre uma residência em projeto com a Árvores Hara- Fonte: instagram.com/haraarvores


Uma árvore que vai ficar para alguém

Uma oliveira centenária foi plantada por alguém há mais de um século e, bem instalada, segue de pé muito depois do projeto. Para Helô e Luciana, é essa escala de tempo que dá valor a cada exemplar:


“Eu gosto de pensar que todas essas árvores que a gente tem no viveiro, alguém plantou, a gente está cuidando e elas vão ficar para alguém.” Helô Pedroso e Luciana Ramos, da Árvores Hara

Quando o cliente pede uma oliveira, você está entregando a imagem da foto ou o lugar em que ela vai viver pelos próximos cem anos?


Oliveira não se encaixa no projeto. O projeto é que se prepara para ela.






Escrito por Bruna Sakamoto

Comunicadora






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