ÁRVORE GRANDE, RISCO GRANDE? O QUE PROTEGE O PAISAGISTA NA HORA DE ESPECIFICAR UM EXEMPLAR ADULTO


Árvore adulta sendo içada num plantio - Projeto com a Árvores Hara, Fonte: Instagram.com/arvoreshara]
Olá, paisagista! Poucas decisões de projeto têm tanto impacto quanto a escolha de uma árvore adulta. Ela dá escala, sombra desde o primeiro dia e aquele efeito que o cliente espera ver na entrega. E, justamente por isso, é também o item que mais tira o sono: se ela perde as folhas ou não pega, quem vai ser cobrado?
O risco tem nome e sobrenome
Quando o cliente olha para uma árvore seca no meio do jardim novo, ele não pensa no produtor, na transportadora ou na equipe que plantou. Pensa em quem indicou. O projeto leva a assinatura do paisagista, e a árvore mais cara do jardim vira o cartão de visita dele, para o bem ou para o mal.
Por isso, a pergunta mais importante não é só “qual espécie?”, mas “essa árvore está pronta para ser transplantada agora?”.
Quando não dá tempo, não dá garantia
O paisagista João Jadão contou no podcast Arte da Mata uma história que resume bem o dilema. Ele disputava a implantação do jardim de um shopping em Brasília, com centenas de árvores de grande porte, e o prazo até a inauguração não deixava tempo para preparar as raízes das árvores. Quando o cliente perguntou pela garantia, a resposta foi direta:
“Eu não posso te dar garantia das árvores. (...) Se a gente não tiver efetivamente esse tempo para preparar essas espécies para ir para o berço, eu não tenho como fazer. E vocês não me deram esse tempo.”

Paisagista João Jadão no podcast Arte da Mata
Outro concorrente prometeu 100% de garantia e ficou com a obra. Segundo Jadão, depois da implantação veio um longo processo de troca de árvores. A lição que ele tira é que, às vezes, é preciso dar um passo para trás quando a gente sabe que o prazo vai cobrar a conta.
O que é, afinal, uma árvore “curada”
No mesmo episódio, Jadão explica a sangria de um jeito simples: abre-se a vala em volta da árvore, formando o torrão, mas ela continua no solo. A árvore percebe que estão mexendo com ela, guarda energia e, com o tempo, solta raízes novas. É esse enraizamento que reduz o risco quando ela é finalmente retirada e levada para o projeto.
Na prática, o corte tira da árvore as pontas das raízes, que são justamente as que absorvem água. Enquanto elas não se refazem, a copa sofre.
Helô Pedroso e Luciana Ramos, da Árvores Hara, convivem com essa fase todos os dias. No viveiro da empresa, em Santa Catarina, árvores adultas vindas de produtores de várias regiões do país passam meses em cura antes de seguir para os projetos. Elas descrevem a parte que o cliente quase nunca vê:
“Elas ficam sequinhas nesse processo. Você olha e pensa: essa árvore está morta, não está? Tem que esperar esse tempo de enraizamento, da brotação nova, das folhas novas começarem a se formar novamente.”

Helô Pedroso e Luciana Ramos, da Árvores Hara, no podcast Arte da Mata
Esse tempo muda de espécie para espécie. Segundo as duas, árvores que chegam ao viveiro no mesmo período ficam prontas em momentos bem diferentes: uma lofântera pode pedir um ano ou mais, bem mais do que um ipê. O sinal de que a cura terminou é visível: raízes novas no torrão e copa verde outra vez.
É por isso que a pergunta sobre o prazo pesa tanto. A fase em que a árvore pode não resistir existe de qualquer jeito; o que muda é onde ela acontece. A árvore que sai do campo direto para a obra vai secar e rebrotar no jardim do cliente. A que foi curada antes chega enraizada e com folhas porque, como elas resumem, “esse risco a gente já correu lá no viveiro”.
Árvores embaladas com raízes novas aparente, do viveiro da Árvores Hara - Fonte: https://www.instagram.com/haraarvores_/
Visite, pergunte e registre
Luciano Zanardo, que trabalha com implantação de vegetação de grande porte, tem uma recomendação clara para quem ainda está formando sua rede de fornecedores:
“A minha dica é visitar os produtores antes de efetivar a compra. Conhecer a história de produção daquelas árvores e todo o processo.”

Luciano Zanardo no podcast Arte da Mata
Ele lembra que o próprio produtor informa de quanto tempo de sangria cada árvore precisa, e que esse prazo tem de ser respeitado. Para exemplares de pequeno e médio porte, recomenda procurar os que já estão enraizados, em potes ou tambores. E acrescenta um hábito que protege o paisagista se algo der errado: registrar em vídeo o berço na medida, o composto, o içamento, o posicionamento, o fechamento e a irrigação. Se o exemplar não vingar, existe um histórico de como a implantação foi feita para mostrar ao produtor.
E o que olhar nessa visita? Helô e Luciana, que visitam produtores para selecionar árvores, listam os pontos: como o exemplar é extraído, o padrão do torrão, como a sangria foi feita e por quanto tempo a árvore descansou, além da formação da copa. O motivo é simples:
“Tem uns que, na foto, é linda a planta. Aí tu vê pessoalmente, já é outra coisa.”
Para elas, o padrão da extração e do torrão influencia a árvore depois de plantada no projeto. O torrão “é o coração da planta” e “tem que chegar inteiro”: por isso viaja embalado e amarrado, e cortar um pedaço para caber num vaso ou numa floreira pede muito cuidado.

Projeto com a Árvores Hara - Fonte: https://www.instagram.com/haraarvores_/
A obra também precisa estar pronta
Não adianta a árvore estar pronta se a obra não estiver. A paisagista Marí Râmos, que coordenou implantações de grandes projetos, conta que aprendeu a trabalhar com protocolo:
“Antes de entrar numa obra, a gente via em que fase ela estava e o que dava para fazer antes. As árvores grandes entram primeiro, porque vão com maquinário e depois ainda vem o piso. Então a gente alinhava quem ficaria responsável por cuidar delas.”

Marí Râmos no podcast Arte da Mata
Entrar primeiro tem um efeito colateral que Helô e Luciana já viram acontecer: quem chega depois para plantar arbustos, forrações e grama aduba o canteiro inteiro, sem saber que a árvore já foi adubada no plantio. “Adubo em excesso também dá problema”, avisam. Num dos casos que acompanharam, a análise de solo confirmou a sobrecarga e foi preciso trocar o substrato em volta do torrão. A saída é combinar antes, entre as equipes, quem aduba e quando.
O içamento pede o mesmo cuidado. Segundo elas, não é qualquer equipe que consegue trabalhar com calma com uma árvore desse porte: pegar no lugar errado pode descascar o tronco e prejudicar o exemplar. Ter em mãos o peso da árvore ajuda a contratar o equipamento certo.
Equipe posiciondo árvore adulta no barço, Projeto com a Árvores Hara - Fonte: instagram.com/arvoreshara]
O primeiro mês decide muita coisa
Árvore curada não é árvore sem cuidado. Depois do plantio vem a adaptação ao novo ambiente e, de acordo com Helô e Luciana, quanto maior o porte, mais longa é essa fase. O começo é o momento mais sensível, e a receita não é a mesma para todas as espécies:
“É diferente plantar uma oliveira de plantar uma jabuticabeira ou uma nativa. A frutífera vai gostar de mais irrigação; a oliveira já não precisa de tanta. Mas, no primeiro mês, ela está recém-replantada: é um cuidado crucial.” Helô Pedroso e Luciana Ramos, da Árvores Hara
Os problemas dessa fase costumam ser simples e passar despercebidos: a rega esquecida, a formiga que apareceu, a adubação repetida. Por isso elas contam que passam a quem vai manter o jardim, inclusive ao jardineiro, um registro do que foi feito (quando a árvore foi plantada, qual adubação recebeu, quando é a próxima) e um cronograma de cuidados. É o tipo de combinado que protege a árvore e, de quebra, o paisagista.
Na sua próxima especificação de uma árvore adulta, você sabe há quanto tempo ela foi curada e quem vai cuidar dela no primeiro mês?
Árvore grande não combina com pressa.

Projetos com Árvores Hara e árvore adulta no viveiro - Fonte: https://www.instagram.com/haraarvores_/

Escrito por Bruna Sakamoto
Comunicadora



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